EDITORIAL: ASSASINATO DE LÁZARO FOI QUEIMA DE ARQUIVO, SIM!

Lázaro Barbosa leva para o túmulo o segredo: ele matava sozinho ou por encomenda?

Imagem ofuscada em respeito ao cadáver\da família do mesmo, quanto das leis vigentes no pais. (Ressaltando que não concordamos com as ações do mesmo) . Img: Jornal Midiamix

Provavelmente, nunca saberemos quais as motivações dos crimes imputados a Lázaro Barbosa. Porque ele já estava condenado à morte quando a caçada a ele iniciou-se, há 20 dias. Julgado e condenado pela grande mídia como maníaco, serial killer, estuprador e praticante de magia negra, Lázaro Barbosa foi alvejado por no mínimo 38 tiros. A polícia diz que ele descarregou a arma que teria em mãos nos policiais. Seriam 6 tiros disparados por uma pessoa contra os tiros de fuzis de 270 policiais fortemente armados.

A própria polícia admite que Lázaro Barbosa gastou todas as balas que havia em sua arma. Ou seja, ele não poderia mais apresentar risco de vida aos policiais que participaram da operação de captura.

Mas, em vez de capturá-lo com vida, a polícia optou por executá-lo. Trata-se do mesmo modus operandi usado contra o miliciano Adriano da Nóbrega, homenageado em 2005 por Flavio Bolsonaro com a medalha Tiradentes, a maior honraria do Estado do Rio de Janeiro, comumente atribuída a pessoas que prestaram serviços relevantes ao Estado. Bandido, miliciano, Adriano da Nóbrega chegou a ser investigado pelo assassinato de Marielle Franco. Mas nada falou sobre esse crime. Com a execução dele, em fevereiro de 2020, seus parceiros de crime estão sossegados: ele nunca mais falará nada.

Foi também assim com Wellington da Silva Braga, o Ecko, amigão do peito de Adriano da Nóbrega, comandante da maior milícia do Rio de Janeiro. Capturado com vida pela polícia militar, Ecko apareceu morto alguns instantes depois. Para explicar a morte de Ecko, a polícia divulgou a seguinte versão: já preso, ao ser transportado de van para o helicóptero que o levaria ao hospital, ele tentou tirar a arma da mão de uma policial.

Para impedir a reação do miliciano, outro policial atirou novamente. O miliciano chegou morto à unidade de saúde na Zona Sul, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Mais um arquivo queimado.

Essas mortes silenciosas, somente presenciadas pela polícia, precisam ser investigadas, apesar de todo o humor linchador que tomou conta da grande mídia, particularmente aquela que vive do sensacionalismo barato.

Mas a caçada a Lázaro Barbosa animou até mesmo a apresentadora Ana Maria Braga a tentar tirar uma casquinha no campo do sensacionalismo. Afinal, vale tudo pela audiência… Todos os dias, o programa “Mais Você”, apresentado por Ana Maria, começava com um relato sobre os avanços da polícia no encalço de Lázaro Barbosa. O resultado desse conluio foi tenebroso.

A repórter da TV Globo foi flagrada hoje, dançando animada, depois da morte de Lázaro. Policiais comemoraram a morte de Lázaro e postaram fotos e vídeos de sua festinha pela morte de Lázaro. E houve até carreata e buzinaço em frente ao IML de Goiânia, pessoas soltando fogos e motoristas buzinando na frente do instituto onde corpo de Lázaro Barbosa chegou na capital goiana para exames.

 

“Viva a morte!”

É interessante observar essa revolta popular contra Lázaro Barbosa, acusado de matar uma família, e de cometer mais um monte de crimes sem que haja comprovação de sua participação em nenhum deles. Tudo resume-se à versão da polícia militar de Goiás.

Paradoxalmente, a poucos quilômetros dali onde o Lázaro atuava, temos o palácio do Planalto. Sentado na cadeira presidencial está um alucinado acusado de ser responsável por muito mais do que meia dúzia de mortes. Já são mais de 500 mil óbitos. Mas essas mortes, essas mortes a TV Globo não quer vingar. Porque é cúmplice desse massacre.

Mais fácil colocar um “Judas” como Lázaro para ser malhado em praça pública.

Alivia a angústia de viver neste País injusto e cruel, ver um homem negro ser morto, acusado como maníaco, serial killer, estuprador e praticante de magia negra. Afinal, o que é um corpo negro crivado de balas? E segue o show de horrores.

A grande mídia ajudou a construir a narrativa para linchar Lázaro Barbosa. Veja como:

1) Uma pessoa começa a aterrorizar propriedades rurais, com assassinatos e invasões. Ok. Disso se deu o início da mistificação. Tratava-se de um monstro violento.

2) As buscas começam a dar errado, por ser uma área grande e de baixa densidade de ocupação, além de possuir várias possibilidades de refúgio. A cobertura da imprensa enveredou para uma falsa correlação do sujeito com o “sobrenatural”, que seria o motivo e os meios para seus ataques. Disso foi um pulo para o racismo religioso (com ataques e depredações contra terreiros de religiões de matriz africana). Relações que foram desmentidas.

3) O estrago já estava feito. Ele era um ser que escapava da força-tarefa colossal (PMs de vários estados colaborando, Polícia Civil, Força nacional, Polícia Federal) por conta de tudo, menos da incapacidade policial.

4) Reviravolta. Surgem indícios (a prisão de um fazendeiro que supostamente deu guarida) de que ele poderia estar a serviço do agronegócio da região, visando à obtenção de terras.

4.1) A relação, que tão fácil se criou entre as raízes sobrenaturais e religiosas e as motivações dos ataques, não foi estabelecida para os ataques e os interesses imobiliários.

5) Estava ficando feio. Os 270 policiais não estavam conseguindo realizar o básico de um trabalho de inteligência. Intensifica-se a explicitação de que seria aceitável um desfecho sangrento. Um confronto entre os policiais e o Mal encarnado poderia acabar em execução (e seria ok).

6) Hoje as possibilidades de investigação se encerram.

Agora falemos da mídia.

A função social que dá legitimidade para a mídia é a de fiscalização e denúncia sobre eventuais infrações à atuação constitucional por parte dos agentes de Estado.

Ela não pode, diferente do Zé do bar, clamar por uma caçada humana. Ela não pode, diferentemente do Zé do bar, justificar uma execução. E, muito menos, ela não pode, diferente do Zé do bar, comemorar, uma execução.

Mas ela fez tudo isso. E mais um tanto.

A morte de um ser humano, definitivamente, não deve ser comemorada. Quando a comemoramos, celebramos a desumanização da população. Só sobra a barbárie.

Pobres de nós!

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